Matadouro! E a Luta Continua…
Acabamos a segunda semana e meia de ensaios. Muita coisa foi testada, pensada, conversada. E’ impressionante como uma pesquisa teorica intensa vai se transformando em ideias no corpo e no espaco e mudando tudo. O que se descobre com um grupo de pessoas ali, todo dia, vai tomando uma forma independente, uma cara própria.
E a velha estoria de que um processo nao se trata de “preencher” um conteudo mas de criar uma outra coisa – que nao e’ nem a teoria e nem a pratica disso – vai se confirmando.
O grande vira pequeno, o que nao se sabia como “traduzir” em acao, se resolve de repente em apenas um gesto, uma disposicao no espaco, um som. E uma coisa nova e desconhecida vai aparecendo para tomar forma, ou melhor, para se desprender da forma e virar o que se quer dizer, de maneira unica, as vezes simples em si mesmo, as vezes tao assustadora.
Como reconhecer os desvios e as descobertas promissoras? como encontrar o ponto de deslocamento ou aprofundamento de uma acao reveladora? como valorar o que se tem e apostar nisso?
Um aprendizado efemero, algo que nao se mantem como regra com o tempo, que nao cabe em uma formula exeguivel, que nao se consegue computar e reter como qualidade constante. So da pra ir acreditando, tateando, como quem destrincha nuvens em um ceu metereologico.
O que fica claro e’ que o corpo e’ o lugar da resistencia, a arma da insistencia, a ferramenta de uma teimosia quase insensivel. E o processo fica sendo um buraco que se cava e por onde se entra sem saber como, quando e onde se vai sair. E nao adianta fechar os olhos como quem entra em um trem fantasma e espera sair ileso, apagando da visao os monstros que aparecem nos relampagos de luz. Olho aberto e olhar atento para nao perder os trens que passam a toda velocidade…porque so passam uma vez.
Ja passamos do estagio de dispensar a teatralidade, evitar as composicoes obvias e os movimentos que impressionam e alimentam a busca do prazer estetico. Ja nos desviamos das ideias prontas, que explicam e asseguram um entendimento raso, e abandonamos tambem o oportunismo tentador de fazer aquilo que o outro ja sabe, para receber em troca medalhas de merito e ser aceito sem objecao.
A questao que vem nos impulsionando e’ a de como fazer acontecer uma luta que nao esteja ali nos corpos, atraves de uma representacao barata, embora dissimulada nas tramas da contemporaneidade, das abstracoes do movimento que quer significar, acabando por corporizar uma ideia concreta, fechada em si mesmo. A luta que seja do outro e apenas dele e que tome a proporcao que tiver que tomar para cada um.
E nos dizemos: Ativar o publico e o sentimento de pertencimento dele. Nao pela imaginacao, o indizivel emocional tao recorrente, mas como tomada de posicionamento na parte que cabe a ele requerer, adentrar e agenciar para deleite e participacao proprios. O espetaculo passa assim a nao existir, para nao confundir processos pessoais singulares e autenticos. O espetaculo como algo que nao se alcanca, que nao se pode discernir em meio a tanta bala perdida voando desbaratadas em todas as direções.
E a Luta Continua!
photos > Cristian Duarte



E continua com muita força essa luta, não só fisicamente ou por uma birra, mas porque existe uma necessidade latente nesse trabalho de permanecer nessa luta, sem cena ou simulação do que pode vir a ser. Acionar esse dispositivo, tarefa bem mais complexa do que contar uma estória, passa pelo reconhecimento de dentro onde a luta É, sem voyerismo, sujeito a atingir e ser atingido e mesmo assim percistente para ainda estar vivo.