Da ordem do inensinável
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Como eu me tornei o que sou?
De cara me parece meio ingênua a pergunta acima. E tentando respondê-la meu racicionio poderia ir a pelo menos duas direções: primeiramente discutir uma noção equivocada e estanque de “ser”. Afinal o que é “ser”? Que implicações existem aí? Como eu posso ser o que sou na minha casa? No meu trabalho? Na minha cidade?
Numa segunda direção, tentando responder a pergunta acima, eu poderia elaborar um punhado de argumentos/indícios que mapeariam minha história. Uma espécie de autobiografia passando pela estrutura familiar, pela classe social, pelo sistema político global e nacional ao qual estou submetida, pelo tipo de comida que como, por onde estudei, pelos lugares que já visitei, enfim por todas as variantes que cruzam um ser social. Teria assim um panorama de “Como eu me tornei o que sou?” e poderia analisar mais cuidadosamente o conjunto de coisas que operando em conjunto atravessaram meu corpo e…pááá…. me configuraram como pessoa. (eita!)
Acontece que eu não estou querendo responder esta pergunta lançada. Interessa-me um antes. Quando digo “como eu me tornei o que sou?” além de uma curiosidade, existe uma articulação de pensamento que me faz ter a necessidade de lançar um olhar crítico sobre minha vida e minha condição. Olhar crítico no sentido de analisar, refletir, e a partir disso construir um outro posicionamento, um novo argumento, uma possível resposta para essa questão.
Pois bem esse tal “olhar crítico” é o tal antes que me interessa falar.
Pela ótica das teorias educacionais ele precisa ser construído, não como uma habilidade, mas como uma espécie de acionamento. Como um estado de consciência que nos torna capazes de relativizar o que aprendemos. Assim revemos o que supúnhamos saber. Conhecer é dinâmico, e só quando consigo lançar um olhar critico sobre minhas próprias visões de mundo, posso relativizá-las e re-significar minha própria existência.
Pois bem, um cem números de teorias afirmam que, não somente, mas de maneira especifica, na arte e no campo do sensível experienciamos melhor isso. É exatamente na natureza ambígua e imprecisa da subjetividade, onde não existe certo e errado, que vou construir essa tal visão critica de mundo. Segundo Elliot Eisner(*), um cara que lançou um livro chave lá em 2002, refinar os sentidos e alargar a imaginação é o trabalho que a arte faz para potencializar a cognição. Cognição é o processo pelo qual o organismo torna-se consciente de seu meio ambiente. E é nessa abordagem cognitiva, que se afirma a eficiência da Arte para desenvolver formas sutis de pensar, diferenciar, comparar, generalizar, interpretar, conceber possibilidades, construir, formular hipóteses e decifrar metáforas. Bem…. esta, é apenas uma pontinha do icerberg histórico de argumentos que defendem a necessidade do ensino de arte no processo de educação.
Ok, não somos educadores, somos um coletivo de artistas.
A necessidade de falar sobre isso, me veio do confronto da manhã na reunião sobre as ações do ponto de cultura. Tentei encostar nessa idéia de ENSINAR O QUE VOCÊ NÃO SABE, trazida pelo Marcelo e também por Helena em outra oportunidade, tomando como base o Mestre Ignorante de Rancière. E confesso que ainda ta difícil de pegar na mão o que é isso.
O Ponto de Cultura, uma das ações do núcleo do dirceu, tem como eixo oficinas pra comunidade e a reunião de hoje trouxe as indagações da minha tarde. Afinal o que queremos com essas oficinas? Sabemos que os modelos prontos tipo “enlatado projeto social em periferia” não é o tipo de comida que nos interessa. Afinal o que estamos chamando de oficina? Qual o conceito de aula que estamos falando? O que é ensinar? ( Sim, concordamos, não se ensina ninguém “a ser” um artista). A idéia de professor não é um pouco arrogante, será que já não tá vencida? E o que são essas novas nomenclaturas, mediador, facilitador, questionador?
E ainda, se forma e conteúdo nunca estão separados que formato iremos adotar ? Porque da mesma forma que cadeiras dispostas em fila com alguém que fica na frente em plano alto, contém em si, um tipo de visão de mundo cartesiana, hierárquica, categorizante, etc. Nesse mesmo sentido, o formato turma fechada com o mesmo professor e uma grade fechada de conteúdo em teatro físico, contém em si uma visão de mundo, uma maneira especifica de dividir informação. Aqui essa visão de mundo, além de ser um recorte em uma área especifica é também da ordem do “ensinar a outros algo que se sabe”. Mesmo guardando-se as proporções e sutilezas, pois aula de teatro físico opera num campo mais subjetivo que a de aula de costura, há em alguém nível um repasse de técnicas e habilidades para aquele fazer especifico. Há alguém que está à frente na condução e SABE, o professor.
E meu confronto vem exatamente daí. Primeiro porque eu ainda não sei ao certo o que é ensinar o que eu não sei. E…se estamos falando de um ensinar que é também um aprender, descobrindo junto com o outro algo, numa experiência colaborativa e aberta. Bem aí não estamos inventando a roda, e seria bacana descobrir que outras pessoas pensaram nessa mesmíssima direção.
Apesar de arte/educação ser um termo que causa arrepios entre artistas, porque está impregnado de reducionismos e significados-clichês, saí hoje da reunião querendo cruzar nossos questionamentos da manhã com outras correntes de pensamento. Que vão inclusive de encontro ao que dissemos, que apontam para a necessidade de sim, se ENSINAR arte, por exemplo. Porque, apesar de na prática isso ser apenas um discurso utópico (arte formando cidadãos), politicamente o ensino de arte SER OBRIGATÓRIO já é uma conquista, e de alguma maneira é também um posicionamento meu que pessoalmente acredito e defendo a necessidade de se estudar arte.
Mesmo não atuando como educadores, estamos nos lançando no desafio de questionar e delimitar conceitualmente o que estamos chamamos de aula ou grupo de estudo. E se estamos falando o tempo todo que o conceito de artista precisa ser ampliado, do artista contemporâneo =cidadão, da atuação política, da etitude, etc. Então arte/educação , ou os mais recentes entendimentos do que seja isso, tem que entrar nessa conversa. Ou não? E talvez eu tenha que trazer isso, né.
Tenho vasculhado alguns artigos que falam sobre abordagem multicultural, e estou convencida de que precisamos mesmo aprofundar esse papo, antes de cair em soluções práticas e eficientes de como gastar o dinheiro público. Porque vamos combinar isso é o menos importante. Todas as formalidades e burocracias, e até mesmo todos os rótulos e selos institucionais, não podem nos impedir de arriscar, de experimentar e de nos lançarmos na descoberta de alguma coisa que não sabemos direito como vai ser, nem onde vai dar.
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(*) Essa parte do Elliot Eisner eu li em: Arte/educação contemporânea: consonâncias internacionais / Ana Mae Barbosa (org.) – São Paulo: Cortez, 2005.
As fotos do francês Olivier Laban-Mattei possuem o cárater do fotojornalismo, ramo da fotografia onde a informação é clara, objetiva e antes de qualquer coisa documenta uma circunstancia. Pra mim possuem uma certa eroticidade espetacularizada, um movimento que me lembra dança, e discutem uma coisa de genero muito sutilmente. E nao estou certa de como elas se relacionam com o que escrevi. (rs).
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Layane can I write you in English okay?
I like what you wrote. Your comments about art education – if I can understand enough of what you wrote in a language not my own – seem to go to the heart of the matter of what you as Nucleo could do for the people, especially the young people of Dirceu.
That is to be able to go deeper than only training, or providing entertainment or false hopes about future careers in the arts. You are right in searching for what you as a group could actually accomplish. It certainly would be difficult to measure immediately anyway. It is more a matter of giving them the inspiration to look at their world in a fresh and illuminating way. If I could be presumptuous, in a way to change their consciousness.
But you would be wrong to think that you are without tools to work simply because you lack certain skills or experience. Working with you all last October I had a chance to observe that you all despite your different temperments have qualities I think are of primary importance in being potentially great educators as well as artists. Mostly you have curiosity, critical intelligence, diligence and a great sense of humor. Perhaps sometimes you weren’t always patient with yourselves or with each other, but that’s certainly not something which can’t be improved on over time. You certainly all seem to have some form of mutual respect underneath all that back and forth. That’s cool.
This gets to where you as Nucleo have something very special – somehow it seems you all have a lot of integrity. I respect this very much. From the places I’ve been and the people I’ve worked with this isn’t always easy to find.
Can I throw a few observations your way? I know you didn’t ask, but since I cant fit them on this commentary… I send them by email to you –
Rob
great rob, thanks a lot for those very sharp observations.
layane vindo de fora, esse comentario pode ajudar muito no que eu acho, seria so uma tomada de consciencia mesmo.
Ainda estou tentando assimilar o assunto dos encontros sobre as aulas do ponto de cultura desde nossas conversas.
gostei do post me deixou um pouco mais confusa e cheia de incertezas, não pelo texto, mas sim pelo cruzamento de tudo que li, ouvi e pensei
.
Quero buscar mais informações…estou meio desequilibrada das idéias.
Hi Rob, darling.
Thank you for your comment, it has very accurately. Sometimes, I also believe that what we do as artists is very close to education, and we need to be aware of this role also represent.
I am very happy about your look who we are, because it comes from afar, another reality, and because you belong to a generation far more than mine, and that means experience. This is an exchange that interesting.
I cheer so we can meet again. It would be great if you could be in Teresina again.
A big kiss. Miss you.
My English is still weird …. sorry for the translator. (rsrsrsrs)